Transnístria é um caldeirão prestes a explodir.

Publicado por: Redação
29/04/2022 10:20 AM
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Reprodução Internet
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Crescem os receios de que a Transnítria, região separatista da Moldávia, seja arrastada para a guerra entre a Rússia e a Ucrânia.

 

Por Susana Valente

Uma série de explosões no território que fica na fronteira ucraniana faz aumentar a tensão e teme-se que a guerra alastre até outro país europeu.

 

A Transnítria pode ser o próximo passo da Rússia em termos militares. Este é o receio que começa a fazer cada vez mais sentido e que o próprio Kremlin já admitiu, em tom de ameaça, sublinhando estar “preocupado” e notando que espera não ter que actuar no território separatista da Moldávia.

 

A região que faz fronteira com a Ucrânia decretou a sua independência da Moldávia no início dos anos de 1990, depois de uma guerra civil em que foi apoiada pela Rússia. Ainda subsistem, desde então, cerca de 1500 tropas russas na região em apoio ao governo separatista cuja independência nunca foi reconhecida a nível internacional.

 

Trata-se de um território pró-russo e, portanto, com grande influência russa, seja na Língua que se fala, seja nos media que são emitidos no país. Assim, a população local tem sido bombardeada com a propaganda da Rússia quanto às motivações de “desnazificação” da Ucrânia.

 

Nos últimos dias, houve várias explosões no território, duas das quais danificaram antenas transmissoras russas. Foi ainda lançada uma granada de mão contra o Ministério da Segurança do Governo separatista na cidade de Tiraspol.

 

A presidente da Moldávia, Maia Sandu, viu-se obrigada a convocar reuniões de emergência face a estes incidentes. À comunicação social falou em ataques terroristas levados a cabo por “forças internas da Transnítria” que “querem uma guerra e estão interessadas em desestabilizar a situação”.

 

Já o ministro da Defesa da Ucrânia referiu-se a “uma provocação planeada pelos serviços especiais russos“.

 

Por outro lado, o líder do Governo da Transnítria, Vadim Krasnoselsky, culpou as tropas ucranianas pelo que chamou de “ataques terroristas”.

 

Na Rússia, o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros, Andrey Rudenko, referiu-se a “forças” que estarão a tentar criar “outro foco de tensão na Europa”.

 

Rudenko sublinhou ainda que Moscovo está “preocupado” e que “gostaria de evitar um cenário” em que a região fosse arrastada para a guerra.

 

Os EUA estão a acompanhar a situação de perto e o porta-voz do Pentágono, John Kirby, refere, citado pelo The Whashington Post, que ainda é cedo “para saber exactamente o que aconteceu” e “quem é responsável” pelas explosões.

 

“Corredor perigoso” entre Odessa e a Transnítria

O que é certo é que a Transnítria é o assunto do momento no âmbito da guerra na Ucrânia. O presidente deste país, Volodymyr Zelenskyy, tem repetido que a “guerra da Rússia contra a Ucrânia é apenas o princípio”, notando que “o objectivo último” de Putin é “desmembrar todo o centro e leste da Europa e desferir um golpe global na democracia”.

 

O ex-ministro da Defesa da Moldávia, Vitalie Marinuta, acredita que “há motivos para preocupações”, conforme refere à Euronews.

 

Um alto comandante russo assumiu, na semana passada, que o objectivo da Rússia é tomar o controlo do sul da Ucrânia e obter o acesso à Transnístria

 

Dessa forma, a Rússia criaria “um corredor” pelo sul da Ucrânia para “uma região que Moscovo controla” e que “é amigável”, como nota a analista militar e professora universitária Natalia Albu, em declarações à Euronews.

 

“Se os russos chegarem a Odessa, essa junção é perigosa”, alerta ainda Albu.

Esse “corredor” entre Odessa e a Transnítria impediria o acesso da Ucrânia, e também da Moldávia, ao Mar Negro.

 

Para a Rússia, poderia ser um “corredor” importante para fazer chegar medicamentos e comida aos seus soldados na Ucrânia, tornando a Transnítria num local seguro para reabastecer as tropas e as viaturas, bem como para reparar equipamentos e reagrupar recursos.

 

Além disso, a Rússia poderia também usar as forças da Transnítria, cerca de 7500 militares, contra a Ucrânia.

 

Porém, também há quem avance que estas posições públicas de Moscovo podem ser apenas manobras de distracção, com o intuito de influenciar a Ucrânia a deslocar tropas da região do Donbass para a fronteira com a Transnítria.

 

Interesses russos vs interesses económicos do grupo que “governa a Transnítria”

 

Vitalie Marinuta fala em “dois cenários” possíveis, ou com a Transnístria a “ser totalmente leal à Rússia, forçada” pelos soldados russos presentes na região, ou com “os interesses económicos do Sheriff Holding Company” a prevalecerem e a manterem a região fora da guerra.

 

Este grupo económico detém uma rede de supermercados, postos de gasolina, várias fábricas e o clube de futebol Sheriff que fez sensação na Liga dos Campeões da época passada, derrotando o Real Madrid no Santiago Bernabéu.

 

Segundo Marinuta, é o grupo financeiro quem “de facto governa a Transnítria”, uma vez que tem o monopólio do mercado em sectores fundamentais, dando um contributo essencial para o orçamento do território.

 

O Sheriff Holding Company tem entre os seus fundadores um ex-elemento dos serviços secretos soviéticos, Viktor Gușan, que é considerado “a pessoa mais influente da região”, como nota a Euronews.

 

Perante o aumento da tensão, o Governo separatista da Transnítria reforçou a segurança na região, com a instalação de postos de controle militar às entradas das cidades e com o cancelamento da parada anual do Desfile da Vitória, a 9 de Maio.

 

Enquanto isso, haverá já alguma população a fugir da região para o interior da Moldávia, temendo o pior cenário.

 

Nas redes sociais, são partilhadas imagens que mostram filas de carros de pessoas que estarão já a fugir da Transnítria que tem cerca de 500 mil residentes.

 

A Moldávia é um dos países mais pobres da Europa, com apenas cerca de 2,6 milhões de habitantes. É também o país que acolhe o maior número de refugiados ucranianos per capita, com mais de 300 mil pessoas que fugiram da guerra.

 

Originalmente publicado por: Planeta, ZAP //

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